Inspiração para a iniciativa Sábados Azuis

A Iniciativa Sábados Azuis e os ODS
5 de julho de 2021
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Inspiração para a iniciativa Sábados Azuis

por Luciana Sagi, idealizadora do projeto

Olá, pessoal!

Gostaria de compartilhar com vocês como surgiu a iniciativa Sábados Azuis. Ela se funde com minha trajetória profissional e acredito que muitos profissionais e estudantes da área vão se identificar e, espero, possam vir conosco!

Sempre sonhei em trabalhar com planejamento e gestão de destinos turísticos porque acredito ser incrível o quanto o turismo tem aderência com o potencial do Brasil. Além de valorizar nossos ativos – as pessoas e seus saberes e conhecimentos, os territórios e suas belezas naturais, contribuindo para a conservação e desenvolvimento econômico –, é um segmento com uma agenda com imensa capacidade para transformar de modo significativo pessoas em cidadãs, abertas a colaborar para uma realidade mais justa e positiva.

Graduei em 2002, período em que vivíamos um boom de cursos de turismo e que a profissão era a grande promessa para o século XXI. Naquela época, profissionais trabalhando com gestão de destinos turísticos, tanto no setor público quanto no privado, eram escassos. Havia poucas informações sobre o mercado e a internet quase nem fazia parte do dia a dia do nosso trabalho.

Durante a faculdade, os queridos professores da graduação viam meu interesse e queriam ajudar, mas não haviam muitas oportunidades. Como o desejo de estar na área era enorme, agarrei todas as possibilidades que estavam conectadas com a área. Atuei em um projeto de monitoria turística no Parque Ibirapuera, realizado pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente de São Paulo em parceria com a universidade Anhembi Morumbi; fiz estágio na Walt Disney World; trabalhei como pesquisadora no aeroporto de Guarulhos para coletar dados para estudos de perfil de demanda; até que, um dia, consegui chegar na Ruschmann Consultores de Turismo.

Desde então, ao longo destes 20 anos de carreira completados em 2021, venho atuando principalmente como consultora para destinos turísticos e áreas protegidas no Brasil (e um pouquinho em outros países) para governos, empresas, ONGs e organismos multilaterais de desenvolvimento. Tive também a oportunidade de atuar mais diretamente com o setor público no gerenciamento do Prodetur Nacional Pernambuco, além de ter sido subsecretária de turismo em Maceió, no estado de Alagoas.

Em constante processo de aprendizado, desafios me inquietaram e continuam a fazê-lo. Sempre me intriguei com as subjetividades das instituições e pessoas que atuam na gestão de destinos turísticos. Dentre os aspectos que mais chamaram a atenção para políticas de relativo sucesso nos mais de 50 projetos que atuei foram o alinhamento de missões individuais com as coletivas, alto grau de inteligência emocional, abertura para aprendizado constante, compartilhamento, trocas e manutenção de uma coesão para além do conhecimento especializado.

Planejar e gerir um destino turístico se mostra uma tarefa que exige conhecimentos multidisciplinares, olhar sistêmico e holístico e, portanto, é preciso ter a habilidade para lidar com pessoas, realidades e conhecimentos distintos. Necessitamos colaborar, buscar soluções comuns, cocriar. Por isso, acredito que, para que o turismo seja, de fato, um vetor de desenvolvimento local, a união dos profissionais do setor é fundamental.

Esses desafios, por vezes, me colocaram em grandes momentos de reflexão e reavaliação do quê e como eu estava fazendo no trabalho de consultoria. Bem no início da carreira, me deparei com uma certa “crise” porque tive um choque de realidade sobre o quanto o turismo mal planejado ou a falta de conhecimento especializado e de união é prejudicial para todo um território, inclusive para pessoas que não fazem nem ideia do que está acontecendo.

Foi aí que, caminhando pelas ruas de Curitiba, no Paraná, entrei em um sebo e, de pronto, um título chamou a atenção: “Sábados Azuis – 75 histórias de um Brasil que dá certo”, do jornalista e escritor Márcio Moreira Alves.

No livro, são relatadas histórias de iniciativas realizadas em todo o Brasil por pessoas, associações e governos que demonstraram criatividade, força de vontade e, acima de tudo, construções em prol do coletivo, e que tiveram resultados muito positivos. Cada um dos projetos mostra o poder da empatia, do senso de coletividade e de atitudes positivas. Fiquei muito feliz com o livro em mãos; ele passou a ser um amuleto, um símbolo que me mostrava que era possível fazer diferente. Esse título sempre me trouxe paz.

Recorri a ele em vários momentos da carreira, para me lembrar da força e dedicação de tantas pessoas no Brasil. Pensei o quanto gostaria de, um dia, ter uma dessas histórias para contar, para fazer parte.

Esse era o ideal de turismo que eu tinha. Pessoas, não importa com qual grau de conhecimento ou experiência, mas comprometidas de fato com o turismo. Agregando seus saberes para fazer algo orientado, positivo, com resultados benéficos.

Tem sido incrível ver como iniciativas simples mudam a qualidade da gestão de pequenos municípios e como a troca de experiências agrega individualmente e ao coletivo. O Brasil conta com um quantidade de profissionais extraordinário no turismo; somos destaque em práticas de turismo seguro e normas do setor, gestão participativa em áreas protegidas, turismo de base comunitária, gestão de orlas turísticas, entre muitos outros.

Possuímos uma rede de pesquisadores fantástica, associações de segmentos turísticos comprometidas com a sustentabilidade, empresários e profissionais criativos e inovadores, e universidades comprometidas em formar pessoas para trazer soluções para o mundo real. Avançamos, em muitos aspectos, em termos de políticas públicas para o turismo no Brasil.

Mas, ainda temos um longo caminho. As dificuldades dos municípios continuam a preocupar. Estudantes querem ter contato com a realidade de mercado. Profissionais do setor querem contribuir e estão inquietos.

Precisamos ainda fazer muitas coisas básicas e simples nos destinos. Muitos territórios não estão preparados para o turismo de modo efetivo e estão pedindo ajuda. Não há planejamento de orçamento. Não existem estratégias e projetos, havendo um caminhar desnorteado, o que traz graves consequências. É comum vermos destinos implantarem projetos desconectados de sua realidade e das necessidades de mercado ou das importantes premissas da sustentabilidade.

Muitas vezes, os gestores e lideranças querem fazer, possuem força de vontade, mas não sabem por onde começar ou não possuem a real dimensão da complexidade que têm em mãos. Infelizmente, 2020 veio para mostrar isso da forma mais árdua possível. Quem estava pedindo ajuda, agora está literalmente pedindo socorro.

Neste momento, o mundo reflete sobre papéis e os limites de atuação do poder público, privado, terceiro setor, indivíduos, coletivos. Fica mais evidente que não há soluções únicas e que elas partem de construções coletivas.

Assim, acredito que este seja um momento muito oportuno para colocar em prática a Iniciativa Sábados Azuis, que foi sendo idealizada ao longo de muitos anos e que começou a tomar corpo efetivo, em junho de 2020, com o Centro de Estudos em Turismo e Desenvolvimento Social da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Aqui, começamos a unir forças, formando um Núcleo Gestor de voluntários extremamente dedicados e comprometidos com o projeto.

A ideia é que o Sábados seja uma rede de colaboração, cocriação de soluções e troca de conhecimentos, mas em um ambiente totalmente virtual.

A proposta inicial é que sejam disponibilizadas horas de mentoria por voluntários (profissionais de mercado, estudantes e pesquisadores) para municípios e pequenas regiões, com o objetivo de apoiar e auxiliar na solução de questões simples, mas que possam garantir um pontapé para motivar o aprimoramento da gestão de destinos turísticos. Todos os atendimentos serão relatados no blog, permitindo intercâmbio e conexão ampliada.

Sua estrutura vem sendo organizada, com intensa dedicação do Núcleo Gestor, há um ano, e ela já foi testada com dois destinos turísticos.

Sonhamos que a iniciativa engaje muitos voluntários e que possamos apoiar diversos destinos turísticos do Brasil, sendo uma alternativa de parcerias e meios de implementação de políticas públicas e de fortalecimento de pessoas, profissionais e instituições do setor, o que está totalmente relacionado com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), na Agenda 2030 para a Sustentabilidade.

Mesmo que, no início, a proposta do Sábados seja realizar mentorias pontuais e ainda em pequena escala, acreditamos no potencial de crescimento da iniciativa e sabemos que, destas pequenas gotas, temos um oceano de oportunidades. O importante é que possamos nos apoiar, gerando experiências, conhecimentos e fornecendo suporte aos destinos para que encontrem caminhos onde prevaleça a colaboração, a qualidade técnica e uma visão holística e humana sobre o turismo.

Vamos nessa!?

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